{"id":576,"date":"2020-04-25T18:51:06","date_gmt":"2020-04-25T21:51:06","guid":{"rendered":"http:\/\/161.35.11.199\/?p=576"},"modified":"2020-04-25T18:51:06","modified_gmt":"2020-04-25T21:51:06","slug":"por-que-se-morre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/2020\/04\/25\/por-que-se-morre\/","title":{"rendered":"Por que se morre?"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/161.35.11.199\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/flor-murcha-02_02_2019.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-577\" width=\"518\" height=\"383\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Com Claude Bernard, temos constatado a originalidade de processos da mat\u00e9ria organizada para fabrica\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias necess\u00e1rias ao funcionamento vital, atribuindo essas propriedades aos \u00f3rg\u00e3os dotados de uma virtude especial, inencontr\u00e1vel nos corpos brutos. A exist\u00eancia de uma for\u00e7a animante do organismo torna-se, por\u00e9m, mais evidente ainda, ao examinarmos a evolu\u00e7\u00e3o de todos os seres vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo o que tem vida nasce, cresce e morre. \u00c9 fato geral que quase n\u00e3o padece exce\u00e7\u00e3o.[i] Mas, por que morrer? Excetuando-se os casos de acidentes ou de enfermidades que destroem irremediavelmente os tecidos, como se d\u00e1 que, mantendo constantes as mesmas condi\u00e7\u00f5es gerais, indispens\u00e1veis ao entretenimento da vida, isto \u00e9, a \u00e1gua, o ar, o calor e os alimentos, o ser depere\u00e7a at\u00e9 \u00e0 dissocia\u00e7\u00e3o total?<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer que os \u00f3rg\u00e3os se gastam \u00e9 indicar apenas uma fase da evolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 demonstrar um fato. Neste caso, pergunta-se: mas por que se gastam os \u00f3rg\u00e3os e por que se mant\u00eam perfeitos na idade viril, do mesmo passo que aumentam de energia na juventude?<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o interrogativas diante das quais a ci\u00eancia materialista emudece. Sem embargo, uma explica\u00e7\u00e3o se oferece e n\u00f3s vamos exp\u00f4-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que admitamos na c\u00e9lula fecundada uma certa quantidade de for\u00e7a vital, tudo se torna compreens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida total de um indiv\u00edduo \u00e9 o resultado de um trabalho a completar-se, trabalho esse mensur\u00e1vel pelas incessantes reconstitui\u00e7\u00f5es da mat\u00e9ria desgastada pela fun\u00e7\u00e3o vital, e a for\u00e7a para isso necess\u00e1ria pode considerar-se como uma fun\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, que aumenta, atinge um m\u00e1ximo e baixa a zero.<\/p>\n\n\n\n<p>Se projetamos no ar uma pedra, comunicamos \u00e0 pedra a for\u00e7a dos nossos m\u00fasculos. A pedra eleva-se r\u00e1pida, a despeito da atra\u00e7\u00e3o centr\u00edpeta, at\u00e9 que as duas for\u00e7as contr\u00e1rias se equilibrem. Depois, a atra\u00e7\u00e3o predomina, a pedra cai e, quando chega ao ponto de partida, toda a energia a ela comunicada tem desaparecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode conceber-se que algo de an\u00e1logo se passe com os seres vivos. O reservat\u00f3rio de energia potencial, proveniente dos genitores, e que se encontra na c\u00e9lula original, transforma-se em energia natural, \u00e0 medida que organiza a mat\u00e9ria. De come\u00e7o, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 assaz en\u00e9rgica, a assimila\u00e7\u00e3o, o agrupamento das mol\u00e9culas, ultrapassam a desassimila\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo cresce; a seguir, vem o equil\u00edbrio de perdas e ganhos: \u00e9 a maturidade, a estabilidade do corpo, at\u00e9 que, chegada a senectude, esgotada a for\u00e7a vital, n\u00e3o mais suficientemente alimentados os tecidos, a morte sobrev\u00e9m, o organismo desagrega-se, a mat\u00e9ria retorna ao mundo inorg\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, pois, acreditamos haja uma certa quantidade de for\u00e7a vital distribu\u00edda por toda criatura que surge na Terra; e, como a gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea n\u00e3o existe em nossa \u00e9poca,[ii] \u00e9 por filia\u00e7\u00e3o que se transmite essa for\u00e7a, ali\u00e1s, s\u00f3 manifesta nos seres animados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, n\u00e3o s\u00f3 na mat\u00e9ria e no seu condicionamento residem as propriedades da vida org\u00e2nica. H\u00e1 que lhe presumir, ainda, uma for\u00e7a vital renovadora, ou seja, refectiva das partes destru\u00eddas. Da\u00ed, o absoluto erro dos s\u00e1bios, que imaginam surpreender o segredo da vida em promovendo a s\u00edntese da mat\u00e9ria org\u00e2nica. Suponhamos que, em conseq\u00fc\u00eancia de manipula\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, t\u00e3o s\u00e1bias e complicadas quanto as possamos imaginar, e movimentando todos os agentes f\u00edsicos \u2013 calor, eletricidade, press\u00e3o, etc. \u2013, cheg\u00e1ssemos a fabricar protoplasma artificial&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas&#8230; a vida? T\u00ea-la-ia tal produto? N\u00e3o, certo, porque o que caracteriza a vida \u00e9 a nutri\u00e7\u00e3o reparadora do disp\u00eandio.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa massa protopl\u00e1smica h\u00e1 de ser inerte, insens\u00edvel \u00e0s excita\u00e7\u00f5es exteriores, qual se n\u00e3o d\u00e1 com a massa viva. Mas, ainda supondo que assim n\u00e3o fora, s\u00f3 pud\u00e9ramos justific\u00e1-lo em detrimento da estrutura \u00edntima, destruindo-se. Essa massa artificial poderia subsistir a t\u00edtulo prec\u00e1rio, mas, uma vez exausta, n\u00e3o haveria como reproduzir-se, n\u00e3o viveria mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Citamos o protoplasma porque ele representa a mat\u00e9ria simples por excel\u00eancia; mas, se tom\u00e1ssemos uma c\u00e9lula, a complica\u00e7\u00e3o aumentaria, visto que a c\u00e9lula tem forma determinada e a Ci\u00eancia \u00e9 absolutamente incapaz de explicar essa forma, como veremos dentro em breve.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, importa definir precisamente o que pensamos, para que fique bem clara a nossa concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1quina delicada e complexa \u00e9 o corpo humano; os tecidos que o formam originam-se de combina\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas muito inst\u00e1veis, devido aos seus componentes; e n\u00f3s n\u00e3o ignoramos que as mesmas leis que regem o mundo inorg\u00e2nico regem os seres organizados. Assim, sabemos que, num organismo vivo, o trabalho mec\u00e2nico de um m\u00fasculo pode traduzir-se em equivalente de calor; que a for\u00e7a despendida n\u00e3o \u00e9 criada pelo ser, e lhe prov\u00e9m de uma fonte exterior, que o prov\u00ea de alimentos, inclusive o oxig\u00eanio; e que o papel do corpo f\u00edsico consiste em transformar a energia recebida, albergando-a em combina\u00e7\u00f5es inst\u00e1veis que a emancipar\u00e3o \u00e0 menor excita\u00e7\u00e3o apropriada, isto \u00e9, sob a\u00e7\u00e3o volitiva, ou pelo jogo de irritantes especiais dos tecidos, ou de a\u00e7\u00f5es reflexas.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 a\u00ed, nada de mais explic\u00e1vel pelas leis f\u00edsico-qu\u00edmicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, quando ocorre uma dessas a\u00e7\u00f5es, quando a subst\u00e2ncia do m\u00fasculo operante se destr\u00f3i, \u00e9, ent\u00e3o, que a for\u00e7a vital interv\u00e9m para reconstituir o tecido, refazendo as c\u00e9lulas servidas \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o vital. Nisso est\u00e1, precisamente, o que diferencia da mat\u00e9ria bruta o ser animado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na planta mais \u00ednfima existe alguma coisa mais que no mineral, e essa alguma coisa n\u00e3o repara o corpo sempre nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. Essa refec\u00e7\u00e3o varia com a idade: integral na juventude, incompleta na velhice. \u00c9 uma for\u00e7a que tende a diminuir, at\u00e9 que se extingue.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, portanto, uma for\u00e7a vital, inteiramente outra que as de n\u00f3s conhecidas, mas, for\u00e7a que tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ser uma modifica\u00e7\u00e3o da energia universal, tal como a eletricidade, que se distingue do calor ou do magnetismo, posto que estas duas for\u00e7as n\u00e3o passem tamb\u00e9m de modalidades da mesma energia. Por si s\u00f3, essa for\u00e7a vital nada engendraria, n\u00e3o lhe estivera a intelig\u00eancia associada, a partir das manifesta\u00e7\u00f5es mais rudimentares, por culminar no mais elevado complexo \u2013 o homem. Todo ser vivente possui uma parcela de intelig\u00eancia rudimentar\u00edssima, quanto a possamos imaginar nas formas vitais primitivas, mas que aumenta e especifica-se \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que galga a cadeia dos seres, para abrolhar na humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Teremos ocasi\u00e3o de voltar a este assunto t\u00e3o relevante, t\u00e3o logo tenhamos fixado o papel do perisp\u00edrito nos seres animados.<\/p>\n\n\n\n<p>A for\u00e7a vital por si s\u00f3 n\u00e3o bastaria para explicar a forma caracter\u00edstica de todos os indiv\u00edduos, e tampouco justificaria a hierarquia sistematizada de todos os \u00f3rg\u00e3os, sua sinergia em fun\u00e7\u00e3o de um esfor\u00e7o comum, visto serem eles, simultaneamente, aut\u00f4nomos e solid\u00e1rios. Neste ponto \u00e9 que incide o ascendente da interven\u00e7\u00e3o do perisp\u00edrito, ou seja, de um \u00f3rg\u00e3o que possua as leis organog\u00eanicas, mantenedoras da fixidez do organismo, atrav\u00e9s das constantes muta\u00e7\u00f5es moleculares.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Gabriel Delanne. A evolu\u00e7\u00e3o an\u00edmica. Cap. 1.<\/p>\n\n\n\n<p>_________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>[i] Dizemos quase, porque organismos inferiores, como as moneras, que s\u00e3o uma simples c\u00e9lula, jamais se destroem, a n\u00e3o ser acidentalmente. De fato, o que sucede \u00e9 que, depois de atingirem um certo volume, por efeito da nutri\u00e7\u00e3o, esses corpos de bipartem e os dois segmentos tornam-se dois seres distintos, a crescerem e se reproduzirem pelos mesmos processos. Nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 morte, n\u00e3o se pode distinguir a geradora da gerada, nem saber em qual reside a individualidade. S\u00e3o, portanto, realmente imortais.<\/p>\n\n\n\n<p>[ii] As experi\u00eancias de Pasteur demonstraram \u00e0 saciedade que, presentemente, todo indiv\u00edduo prov\u00e9m de um semelhante. Nada prova, por\u00e9m, que assim tenha sido originariamente e que, em \u00e9pocas pr\u00edstinas, as condi\u00e7\u00f5es vitais n\u00e3o pudessem variar a tal ponto que a monera engendrasse, mediante evolu\u00e7\u00f5es gradativas e ascendentes, o homem atual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com Claude Bernard, temos constatado a originalidade de processos da mat\u00e9ria organizada para fabrica\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias necess\u00e1rias ao funcionamento vital, atribuindo essas propriedades aos \u00f3rg\u00e3os dotados de uma virtude especial, inencontr\u00e1vel nos corpos brutos. 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