{"id":1628,"date":"2020-06-06T19:20:31","date_gmt":"2020-06-06T22:20:31","guid":{"rendered":"http:\/\/161.35.11.199\/?p=1628"},"modified":"2020-06-06T19:20:31","modified_gmt":"2020-06-06T22:20:31","slug":"alcool-e-obsessao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/2020\/06\/06\/alcool-e-obsessao\/","title":{"rendered":"\u00c1lcool e obsess\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/161.35.11.199\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/alcool-02_12_2017.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1629\" width=\"463\" height=\"233\" srcset=\"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/alcool-02_12_2017.jpg 800w, https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/alcool-02_12_2017-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/alcool-02_12_2017-768x384.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 463px) 100vw, 463px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Caso da obra \u201cSexo e destino\u201d pelo esp\u00edrito de Andr\u00e9 Luiz, psicografia de Chico Xavier.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A noite avan\u00e7ava.<\/p>\n\n\n\n<p>Transpassando estreito corredor, pisamos o recinto dom\u00e9stico, surpreendendo, no limiar,&nbsp;dois homens desencarnados, a debaterem, com descuidada chocarrice, escabrosos temas de vampirismo.<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230;] Malandros acalentados, mas perigosos, conquanto invis\u00edveis para aqueles junto dos quais se erguiam por amea\u00e7a insuspeitada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por semelhantes companhias, f\u00e1cil apreciar os riscos a que se expunham os moradores daquele ninho de cimento armado, a embutir-se na constru\u00e7\u00e3o enorme, sem qualquer defesa de esp\u00edrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Entramos. Na sala principal, um cavalheiro de tra\u00e7os finos, em cuja maneira de escarrapachar-se se adivinhava, para logo, o dono da casa, lia um jornal vespertino com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os atavios do ambiente, apesar de modestos, denunciavam apurado gosto feminino. O mobili\u00e1rio antigo de linhas quase rudes suavizava-se ao efeito de ligeiros adornos. [&#8230;] Mas, destoante e agressiva, uma esguia garrafa, contendo u\u00edsque, empinava o gargalo sobre o crivo lirial que completava a eleg\u00e2ncia da mesa nobre, deitando emana\u00e7\u00f5es alco\u00f3licas que se casavam ao h\u00e1lito do amigo derramado no div\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00e9lix encarou-o, manifestando a express\u00e3o de quem se atormentava, piedosamente, ao v\u00ea-lo, e no-lo indicou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Temos aqui o irm\u00e3o Cl\u00e1udio Nogueira, pai de Marina e tronco do lar.<\/p>\n\n\n\n<p>Fisguei-o, de relance. Figurou-se-me o hospedeiro involunt\u00e1rio um desses homens maduros que se demoram na quadra dos quarenta e cinco janeiros, esgrimindo bravura contra os desbarates do tempo. Rosto primorosamente tratado, em que as linhas firmes repeliam a not\u00edcia vaga das rugas, cabelos penteados com distin\u00e7\u00e3o, unhas polidas, pijama impec\u00e1vel. Os grandes olhos escuros e m\u00f3veis pareciam imanizados \u00e0s letras, pesquisando motivos para trazer um sorriso ir\u00f4nico aos l\u00e1bios finos. Entre os dedos da m\u00e3o que descansava \u00e0 beira do sof\u00e1, o cigarro fumegante, quase rente ao trip\u00e9 an\u00e3o, sobre o qual um cinzeiro repleto era silenciosa advert\u00eancia contra o abuso da nicotina.<\/p>\n\n\n\n<p>Det\u00ednhamo-nos, curiosos, na inspe\u00e7\u00e3o, quando sobreveio o inopinado.Diante de n\u00f3s, ambos os desencarnados infelizes, que surpreend\u00earamos \u00e0 entrada, surgiram de repente, abordaram Cl\u00e1udio e agiram sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles tateou-lhe um dos ombros e gritou, insolente:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Beber, meu caro, quero beber!<\/p>\n\n\n\n<p>A voz escarnecedora agredia-nos a sensibilidade auditiva. Cl\u00e1udio, por\u00e9m, n\u00e3o lhe pescava o m\u00ednimo som. Mantinha-se atento \u00e0 leitura. Inalter\u00e1vel. Contudo, se n\u00e3o possu\u00eda t\u00edmpanos f\u00edsicos para qualificar a peti\u00e7\u00e3o, trazia na cabe\u00e7a a caixa ac\u00fastica da mente sintonizada com o apelante.<\/p>\n\n\n\n<p>O assessor inconveniente repetiu a solicita\u00e7\u00e3o, algumas vezes, na atitude do hipnotizador que insufla o pr\u00f3prio desejo, reasseverando uma ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado n\u00e3o se fez demorar. Vimos o paciente desviar-se do artigo pol\u00edtico em que se entranhava. Ele pr\u00f3prio n\u00e3o explicaria o s\u00fabito desinteresse de que se notava acometido pelo editorial que lhe apresara a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Beber! Beber!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Cl\u00e1udio abrigou a sugest\u00e3o, convicto de que se inclinava para um trago de u\u00edsque exclusivamente por si.<\/p>\n\n\n\n<p>O pensamento se lhe transmudou, r\u00e1pido, como a usina cuja corrente se desloca de uma dire\u00e7\u00e3o para outra, por efeito da nova tomada de for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Beber, beber!&#8230; e a sede de aguardente se lhe articulou na id\u00e9ia, ganhando forma. A mucosa pituit\u00e1ria se lhe agu\u00e7ou, como que mais fortemente impregnada do cheiro acre que vagueava no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>O assistente malicioso co\u00e7ou-lhe brandamente os gorgomilos. O pai de Marina sentiu-se apoquentado. Indefin\u00edvel secura constringia-lhe o laringe. Ansiava tranq\u00fcilizar-se.<\/p>\n\n\n\n<p>O amigo sagaz percebeu-lhe a ades\u00e3o t\u00e1cita e colou-se a ele. De come\u00e7o, a car\u00edcia leve; depois da car\u00edcia agasalhada, o abra\u00e7o envolvente; e depois do abra\u00e7o de profundidade, a associa\u00e7\u00e3o rec\u00edproca.<\/p>\n\n\n\n<p>Integraram-se ambos em ex\u00f3tico sucesso de enxertia flu\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, estudara a passagem do Esp\u00edrito exonerado do envolt\u00f3rio carnal pela mat\u00e9ria espessa. Eu mesmo, quando me afazia, de novo, ao clima da Espiritualidade, ap\u00f3s a desencarna\u00e7\u00e3o \u00faltima, analisava impress\u00f5es ao transpor, maquinalmente, obst\u00e1culos e barreiras terrestres, recolhendo, nos exerc\u00edcios feitos, a sensa\u00e7\u00e3o de quem rompe nuvens de gases condensados. Ali, no entanto, produzia-se algo semelhante ao&nbsp;encaixe perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Cl\u00e1udio-homem absorvia o desencarnado, a gulsa de sapato que se ajusta ao p\u00e9. Fundiram-se os dois, como se morassem eventualmente num s\u00f3 corpo. Altura id\u00eantica. Volume igual. Movimentos em-cr\u00f4nicos. Identifica\u00e7\u00e3o positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantaram-se a um tempo e giraram integralmente incorporados um ao outro, na \u00e1rea estreita, arrebatando o delgado frasco.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conseguiria especificar, de minha parte,&nbsp;a quem atribuir o impulso inicial de semelhante gesto, se a Cl\u00e1udio que admitia a instiga\u00e7\u00e3o ou se ao obsessor que a propunha.<\/p>\n\n\n\n<p>A talagada rolou atrav\u00e9s da garganta, que se exprimia por dualidade singular.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos os dips\u00f4manos estalaram a l\u00edngua de prazer, em a\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Desmanchou-se a parelha e Cl\u00e1udio, desembara\u00e7ado, se dispunha a sentar, quando o outro colega, que se mantinha a dist\u00e2ncia, investiu sobre ele e protestou:<br><br>&#8211; eu tamb\u00e9m, eu tamb\u00e9m quero!<\/p>\n\n\n\n<p>Reavivou-se-lhe no \u00e2nimo a sugest\u00e3o que esmorecia.<\/p>\n\n\n\n<p>Absolutamente passivo diante da incita\u00e7\u00e3o que o assaltava, reconstituiu, mecanicamente, a impress\u00e3o de insaciedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Bastou isso e o vampiro, sorridente, apossou-se dele, repetindo-se o fen\u00f4meno da conjuga\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Encarnado e desencarnado a se justaporem.&nbsp;Duas pe\u00e7as conscientes, reunidas em sistema irrepreens\u00edvel de compensa\u00e7\u00e3o m\u00fatua.<\/p>\n\n\n\n<p>Abeirei-me de Cl\u00e1udio para avaliar, com imparcialidade, at\u00e9 onde sofreria ele, mentalmente, aquele processo de fus\u00e3o. Para logo convenci-me de que continuava livre, no \u00edntimo.&nbsp;N\u00e3o experimentava qualquer esp\u00e9cie de tortura, a fim de render-se. Hospedava o outro, simplesmente, aceitava-lhe a dire\u00e7\u00e3o, entregava-se por delibera\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Nenhuma simbiose em que se destacasse por v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>Associa\u00e7\u00e3o impl\u00edcita, mistura natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Efetuava-se a ocorr\u00eancia na base da percuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apelo e resposta. Cordas afinadas no mesmo tom.<\/p>\n\n\n\n<p>O desencarnado alvitrava, o encarnado aplaudia.<\/p>\n\n\n\n<p>Num deles, o pedido; no outro, a concess\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Condescendendo em ilaquear os pr\u00f3prios sentidos, Cl\u00e1udio acreditou-se insatisfeito e retrocedeu, sorvendo mais um gole.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me furtei \u00e0 conta curiosa.&nbsp;Dois goles para tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230;]<\/p>\n\n\n\n<p>Como situar o problema? Se v\u00edramos Cl\u00e1udio aparentemente reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de um fantoche, como proceder na aplica\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a? Se ao inv\u00e9s de bebedice, estiv\u00e9ssemos diante de um caso criminal? Se a garrafa de u\u00edsque fosse arma determinada, para insultar a vida de algu\u00e9m, como decidir? A culpa seria de Cl\u00e1udio que se submetia ou dos obsessores que o comandavam?<\/p>\n\n\n\n<p>O irm\u00e3o F\u00e9lix aclarou, tranq\u00fcilo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ora, Neves, voc\u00ea precisa compreender que nos achamos \u00e0 frente de&nbsp;pessoas bastante livres para decidir e suficientemente l\u00facidas para raciocinar. No corpo f\u00edsico ou agindo fora do corpo f\u00edsico, o Esp\u00edrito \u00e9 senhor da constitui\u00e7\u00e3o de seus atributos. Responsabilidade n\u00e3o \u00e9 t\u00edtulo vari\u00e1vel. Tanto vale numa esfera, quanto em outras. Cl\u00e1udio e os companheiros, na cena que acompanhamos, s\u00e3o tr\u00eas consci\u00eancias na mesma faixa de escolha e manifesta\u00e7\u00f5es conseq\u00fcentes. Todos somos livres para sugerir ou assimilar isso ou aquilo.Se voc\u00ea fosse instado a compartilhar um roubo, decerto recusaria. E, na hip\u00f3tese de abra\u00e7ar a calamidade, em s\u00e3o ju\u00edzo, n\u00e3o conseguiria desculpar-se.&#8221;<br>(Andr\u00e9 Luiz. Sexo e Destino. Psicografia de Francisco C\u00e2ndido Xavier. 12. Ed. Cap. 6)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um caso de Andr\u00e9 Luiz, psicografia de Chico Xavier do livro<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1632,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1628"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1628"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1628\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1632"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistaautadesouza.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}