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SESC

22 Ago 2017 10h50

O Vale dos Tatuados

Hilário pediu que o grupo parasse e fez uma bela prece. Confesso que estava sentindo frio, pois o lugar foi ficando cada vez mais pavoroso muito estranho.

O vento soprava forte. Josué parou, pois dois homens se aproximaram de nós e nos cumprimentaram. [...]

Quem são eles? Perguntei a Juanito.

Os guardiões do Vale dos Tatuados.

Quê? Vale dos Tatuados?!

Sim, estamo-nos dirigindo para lá.

Agora é que a coisa vai esquentar! - falei.

Todos me olharam. Abaixei os olhos e continuei andando. Quando nos aproximamos daquele estranho lugar, pareceu-me que não havia pessoas, porém os dois guardas empurraram uma parede rochosa, que se abriu.

Com espanto, percebemos que era uma gruta, com pouca luminosidade. Muitos ali cantavam estranhas canções e o odor era terrível.
Pensei: “este é o inferno tão falado no mundo físico”.

Aqui é o Vale dos Tatuados? Perguntei.

- Sim, aqui é o vale deles.

Jessé, mas existe tatuado boa gente.

Mesmo assim ele vem para cá?

Não. Aqui se encontram os comprometidos.

Porém, todos aqueles que estragaram sua roupa Perispiritual terão de pagar ceitil por ceitil.

Como assim? Pode explicar?

O perispírito é a veste do Espírito e o corpo de carne é a veste do perispírito, quando o homem está encarnado. Se agredirmos o corpo físico, o perispírito é agredido. Olhe aquele grupo ali: seus componentes tatuaram todo o corpo; corpo e perispírito foram agredidos.

E por que eles vieram parar aqui, Jessé?

Eles se agrupam, fugindo das criaturas normais. Querem chocar a sociedade.

Das tatuagens daquelas estranhas figuras saía uma fumaça escura, que muito os incomodava.

Gostaria tanto de falar com um deles!...

[...] Ele nos levou até um tatuado que, deitado sobre um tapete, soltava baforadas de fumaça. Ele continuou como estava. o guarda lhe falou algo e ele se levantou, aproximando-se de mim,

Que deseja baixinho? Enturmar-se a nós, os “vampiros da corte”?

Não, amigo, queremos apenas perguntar por que vocês vieram parar aqui. Não queremos acreditar que os tatuados tenham um lugar específico.
Não, claro que não. Somos livres

Para ir a qualquer lugar, do inferno ao céu, porém aqui não somos incomodados [...]

Quando vocês desencarnaram, arrependeram-se de ter acabado com a pele do corpo físico? Vimos que o irmão está todo tatuado.

Ele olhou o seu corpo e falou:

[...] Continuarei curtindo as pinturas feitas na minha pele, mesmo que hoje elas me queimem o Espírito.

Como? Queimam seu Espírito?

Claro, seu trouxa. Aí é que mora todo o mal. Dizem os filhos do Homem que nós agredimos o nosso perispírito e só fazendo boas ações veremos apagadas todas essas estampas. [...]

O jovem mostrou-me uma tatuagem de Jesus, com um lenço amarrado na boca.

Por que o Cristo está de mordaça? Perguntei.

Para não me converter - falou, dando gostosas gargalhadas.

Você vai ao plano físico?

Claro, e gosto por demais de ficar intuindo os caras que fazem tatuagens [...]

Olhe aquele ali: morreu com um câncer na língua, tantos piercíngs colocou nela.

Irmão, você não pretende sair daqui?

- Eu saio. Vivo na Crosta com a turma da pesada. Mas você fala em deixar este lugar de vez? Não, não desejo. [...]

Valeu tatuar-se todo?

Ele mordeu os lábios e respondeu:

Não sei se valeu.

Pode me responder mais uma pergunta? Ele riu.

Como posso dizer não, se você é um deles?

Como “ um deles” ?

Os meninos do cordeiro, os Raiozinhos de Sol.

Você conhece os Raiozinhos?

- Claro, são eles que tiram daqui os caretas, os chorões.

E assim mesmo você gosta deles?

Gostar? Você está doido? Não gostamos de ninguém, nem de nós mesmos.

Como vocês vêm para cá?

Andando!... Não temos asas!...

Você se arrepende de ter-se tatuado?

Não. Pena que não pude tatuar a minha alma. Se pudesse, com certeza o faria.

O que leva alguém a tatuar o corpo inteiro, como você fez?

Não sei. Acho que somos influenciados pelos trevosos, os chefões deste vale.

Só nessa hora notei um olhar de tristeza nesse Espírito. Desejei abraçá- lo. [...]

Ainda caminhamos por aquele estranho lugar, onde Espíritos viviam como se ainda fossem encarnados. Andavam em bandos, maltrapilhos, sujos e despenteados.

Eles têm o que comer neste vale? Perguntei ao guarda.

Aqui é uma cidade.

A cidade dos tatuados, com hospital, escola, e até indústria?

Não. As cidades trevosas são vales sem luz, sem água, sem esgoto. Nelas, o Espírito vive como se fosse animal.

Mas eles apenas se tatuaram!...

Será, Luiz, que eles só pintaram o perispírito, ou também deixaram de realizar a tarefa que tinham como encarnados?

Notamos que aqui não há Espíritos com pequenas tatuagens, quase todos as têm no corpo inteiro. Confesso que não entendi o porquê desse lugar existir.

Este lugar, como outros, é escolhido de acordo com a vibração do Espírito.

Jessé, isso aqui é pior do que todos os umbrais que conhecemos. Ele sorriu. E, assim, fomos saindo. Quando já estávamos quase na porta, uma jovem segurou minhas pernas e implorou:

Limpe moço, limpe do meu corpo Perispiritual isto aqui.

Olhei-a e vi a figura de satanás batendo no Cristo.

Por que você fez isso? Perguntei, chocado com aquela visão.

Para chamar a atenção.

Depois dessa tatuagem, ganhei a liderança do grupo. Apague-a, filho do cordeiro, apague-a, pelo amor de Deus!

Camélia aproximou-se e falou:

Você deseja ser ajudada?

E o que mais quero. Ajude-me, estou farta disso tudo.

Está bem, acompanhe-me.

Desejei ir junto, porém fui barrado pelo guarda. Camélia e a jovem misturaram-se aos outros, depois não as vimos mais.

Só quando já estávamos fora dali Camélia juntou-se a nós.

E a jovem, não veio?

Não, Luiz, ela ficou no hospital.

Hospital de onde?

Existe hospital aqui?

Sim, nas proximidades, e presta auxilio quando querem ser ajudados. Porém, difícil é desejarem.

Será que algum dia isso vai acabar?

Sim, com a regeneração da Terra.

Será que não existe um meio de conter o desequilíbrio de alguns jovens, com palestras, conselhos, enfim, fazer algo por eles?

Irmão, a família é que tem de se fortalecer. Entretanto, existem muitas mães de família que acham linda a tatuagem.

Recitei a passagem de Levitico, 19.28: Não vos façais incisões no corpo (...),nem marcas de tatuagem.

( Luiz Sérgio, Mais além do meu olhar)