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SESC

04 Set 2017 22h22

O que acontece quando durmo?

 Já se disse, e com muita propriedade, que o sono, é uma forma de morte. Assim, diariamente, o homem, ao deitar-se, realiza, mesmo que inconsciente, um treino para esse fenômeno biológico terminal.

À semelhança da morte, em que o espírito só se liberta com facilidade do corpo mediante conquistas anteriores de desapego e renúncia, reflexões e desinteresse pelas paixões mais vigorosas, no sono há uma ocorrência equivalente, pois que o ser espiritual possui maior ou menor movimentação conforme as suas fixações e conquistas.

O Espírito sempre está em ação até onde podemos concebê-la. A inatividade não se encontra presente nas Leis da Vida. Mesmo nos momentos de repouso, o espírito se movimenta atraído por aquilo que mais lhe diz respeito.

O sono é, portanto, uma necessidade para refazimento orgânico, o restabelecimento de energias do corpo, o reequilíbrio das funções que o acionam.

Assim que corpo adormece, e , às vezes, mesmo antes do sono total, afrouxam-se os liames que atam o Espírito à matéria, e ele se desprende, parcialmente, rumando para lugares e pessoas aos quais se vincula.

Graças a essa movimentação, quando retorna ao domicílio carnal traz as impressões e lembranças que imprime no cérebro, constituindo-lhe o complexo capítulo dos sonhos.

Detendo-nos apenas nos fenômenos oníricos de ordem espiritual, estes preservam uma correlação entre o estado de evolução do ser e os acontecimentos de que participa.

Num valhacouto de vadios, os que ali se encontram comprazem-se nos mesmos gostos que os reúnem. O mesmo ocorre num recinto reservado à cultura ou às artes, à fé ou ao trabalho. Há leis de afinidades que respondem pelas aglutinações sócio-morais-intelectuais, reunindo os seres conforme os padrões e valores nos quais se demoram.

Parcialmente liberto pelo sono, o Espírito segue na direção dos ambientes que lhe são agradáveis durante a lucidez física ou onde gostaria de estar, caso lhe permitissem as possibilidades normais.

Em tal circustância, pode viajar com os seres amados, que reencontra além da cortina carnal, participando dos seus estudos e realizações, aprendendo lições que lhe ficarão em gérmem, penetrando inclusive, nos registros do passado como do futuro.

Disso decorre a aquisição de informes que desconhecia, como pode prever fatos porvindouros, dando margem às retrocognições e precognições, do agrado dos modernos pesquisadores das ciências paranormais.

Ao mesmo tempo, defronta conhecidos nos mesmos redutos para onde vai ou se deixa conduzir, estabelecendo admiráveis fenômenos de comunicação entre vivos na esfera física.

Nem sempre, porém, as viagens em corpo espiritual, durante o sono, levam aos ambientes de felicidade e progresso onde se cultiva o bem, o bom e o belo.

Mais facilmente, em razão do hábito dos pensamentos ultrajantes, fesceninos e brutais, os Espíritos que se comprazem com semelhante paisagem moral arrebatam o encarnado e levam-no aos redutos do crime e da perversão, onde se lhes ampliam as percepações negativas. Inspiram-se, ali, naquelas regiões de vangalismo e promiscuidade psíquica, e depois trazem para o comportamento diário as aberrações que buscam.

Crimes vergonhosos e programas vis são concertados nesses ambientes espirituais que pululam nas cercanias da Terra.

Urdem-se ali obsessões e vinditas em clima de perversidade sob o comando de mentes implacáveis, que ditam as normas de ação, para que se cumpram os planos nefatas.

Quando o Espírito ainda mantém resistências, que o resquardam da vulgaridade e da aberração, retorna desses antros de réprobos e padecem pesadelos horripilantes, Todavia, se já chafurda nos mesmos ignóbeis comércios de insensatez e loucura, volve ao corpo aturdido, embora fixado no que lhe cumpre executar, como autômato que foi - vítima de hipnose profunda. Esta, porém, não lhe é imposta, pois que foi buscada espontaneamente.

O inverso também se dá amiúde, quando o homem aspira aos ideais de enobrecimento da Humanidade, tornando-se instrumento dos promotores da evolução no mundo.

As suas horas de sono são aproveitadas para engrandecimento dos ideais, amadurecimento das aspirações, enriquecimento dos planos do bem. E pelo fato de ter mais aguçadas as faculdades da alma, encontra ímpares satisfações nesses colóquios e visitas, graças aos quais se concoraja e felicita, podendo levar os labores adiante com alta dose de valor, que aos demais surpreende.

Conforme ocorre no fenômeno da morte, no qual a consciência passa por um torpor, pertubação que é variável, de acordo com as conquistas de cada um, a lucidez durante o sono, nas experiências oníricas, está a depender da densidade vibratória das emoções com que se pauta a vida, no cotidiano.

Desse modo, um programa bem organizado para antes de dormir constituirá emulação para o Espírito, no ato do desprendimento, transferir-se a região felizes e contactar Entidades nobres, conquistando os tesouros da paz, da aprendizagem, da ação relevante, enquanto o corpo repousa.

De bom alvitre, também, que o homem se disponha a cooperar com os Benfeitores da Humanidade nas suas obras fomentadoras do progresso, participando dos seus empenhos com tal ardor que, em retornando ao corpo, permaneça telementalizado por eles, dando curso ao empreendimento na esfera carnal. Diante de realizações enobrecedoras, na Terra, pode o Espírito prosseguir, ao desprender-se pelo sono, sob a tutela dos seus Guias Espírituais, corrigindo enganos e adquirindo mais amplos recursos e entendimento para promover esse trabalho que não dever ser interrompido.

Santa Teresa de Ávila, em desdobramento pelo sono, peregrinou por uma cidade espiritual de sofrimentos, trazendo dali as impressões fortes que foram tomadas como sendo de uma parte do Inferno da teologia católica.

Jacob sonhou com o pai, Danta Alighieri, que lhe mostrou o lugar onde guardara os treze cantos do "Céu", que se encontravam desaparecidos.

Voltaire concebeu, enquando dormia e sonhava, todo um canto de La Henriade.

Tartini compôs, dormindo e sonhando, a sua "Sinfonia ao Diabo".

Os sonhos narrados na Bíblia se enquadram perfeitamente nessas viagens ao plano espiritual, quando o ser se desprende e registra os fatos que narra posteriormente.

O capítulo do sono natural na vida do homem é de muita importância, e está a exigir mais acurado estudo e meditação, a fim de ser aproveitado integralmente em favor do êxito na vilegiatura carnal.

Como um terço da vida física é dedicado ao sono, imenso patrimônio logrará quem converte esse tempo ou parte dele no investimento do progresso, em favor da libertação que lhe credenciará, para um existência plena, um futuro ditoso.

Se alguém diz como e o que sonha, é fácil explicar-lhe como vive nas suas horas diárias.

Dorme-se, portando, como se vive, sendo-lhe os sonhos o retro emocional da sua vida moral e espiritual. (Manoel Philomeno de Miranda, Temas da vida e da morte)