×
SESC

04 Set 2017 20h48

Música e Mediunidade

Na Terra a sinfonia é a forma mais alada da música. Quando ela se une às palavras, assemelha-se à Vitória áptera, que rastejava sem poder levantar vôo e planar no alto.

A música, ligada a palavras, perde um pouco de sua atração e de sua amplitude. No entanto a melodia nos acalenta, nos deleita, nos encanta; ela grava em nossa mente motivos que gostamos de repetir e que nos consolam das tristezas de cada dia.

Porém essa música parece bastante pobre se comparada às harmonias do espaço; para compreendê-las e experimentá-las, é necessário que se possuam sentidos psíquicos bastante desenvolvidos.
 
Vimos mais de uma vez, nas sessões, lágrimas rolarem sobre a face de alguns médiuns, que percebiam os ecos da sinfonia eterna.
 
O médium G. Aubert, apesar de ignorante em música, em completo estado de automatismo toca no piano sonatas, árias inéditas e variadas, nas quais reconhecem-se Beethoven, Bach, Chopin, Berlioz, etc.

A maioria dos compositores afirma que ouve nas horas de recolhimento vozes, sons, que não provêm da Terra.
 
Durante as célebres sessões dirigidas por Jesse Schefard, médium escocês, em todas as grandes capitais e diante de várias cortes soberanas, da mesma forma que nas do dr. San Angelo, em Roma, ouviam-se coros celestes e acordes de numerosos instrumentos invisíveis.

Solos permitiam que se reconhecesse a voz de cantores ou cantoras, já falecidos.
 
A sra. de Koning-Nierstrass descreve uma de suas sessões nos seguintes termos:
 
"J. Schefard ficou hospedado em minha casa, em Haye, durante cerca de seis semanas. Uma noite eu e alguns amigos estávamos reunidos.

Tendo o médium se levantado em meio-transe, pôs-se ao piano. Rappings (batidas) ressoaram por todos os lados, luzes adejavam no cômodo como borboletas.

De repente vozes de homens e de mulheres encheram o ar. Era um coro que cantava uma espécie de cântico; a Hosana e Glória a Deus foram ouvidos por todos nós.

Ora era um coro, ora vozes de mulheres, o soprano dominando todo o canto. Sentada próxima ao médium, constatei que ele não havia aberto a boca. Dois dias após, uma de minhas vizinhas me diz:
 
"– Ah! Desfrutei do lindo concerto que houve uma noite em sua casa; que músicos, e que belo coral fizeram-se ouvir!
 
"Perguntei-lhe:
 
"– A senhora ouviu uma voz de cada vez ou um coro?
 
"– Um coro – respondeu a senhora – eu distinguia bastante distintamente o soprano. Quem é que cantava tão maravilhosamente?"
 
Esse testemunho espontâneo destruía qualquer hipótese de alucinação. A respeito da música dos espíritos, lê-se na introdução de Ensinos Espiritualistas, de Stainton Moses, professor na Universidade de Oxford, a descrição de fenômenos obtidos numa sala desprovida de piano, violino ou qualquer outro instrumento.
 
"Um som se produzia, excessivamente difícil de ser descrito. Assemelhava-se ao suave som de um clarinete, aumentando de intensidade e novamente diminuindo, descendo à primeira emissão abafada, às vezes também apagando-se em um longo lamento melancólico.

Não tendo jamais ouvido nada que se aproximasse desse som realmente extraordinário, não posso dele dar senão uma descrição bastante insuficiente: é importante observar que obtemos apenas notas isoladas, e na melhor das hipóteses, cadências isoladas. Os agentes invisíveis atribuíam esse fato à organização antimusical do médium."
 
Por outro lado, lê-se em Light, de 30 de abril, os seguintes relatos, que mostram outra modalidade dessas manifestações, obtidas à cabeceira de moribundos e percebidas por outros assistentes.
 
"Muitos livros foram escritos a respeito das visões dos moribundos e dos acontecimentos extranormais observados no momento da morte.

Dentre os mais interessantes casos, pode-se citar o do pequeno cativo do Templo: Luís XVII. Beauchesne conta que poucos instantes antes da morte do jovem príncipe perguntaram-lhe se sofria muito.
 
"Ele respondeu:
 
"– Sim, sofro, mas não muito; a música é tão linda.
 
"Fizeram-lhe perguntas a respeito dessa música que ninguém ouvia, porém ele insistia em dizer:
 
"É linda, eu a ouço! – e admirou-se por ninguém mais a ouvir.
 
"Há também o caso de Jacob Boehme, cuja partida da Terra foi acompanhada da mais suave harmonia que ele apenas ouviu e proclamou sublime.

Para Goethe, ao contrário, os sons que percebia em seu leito de morte, quando ele exclamava: “Luz, mais luz ainda!”, foram ouvidos por aqueles que se encontravam perto dele.
 
"Chegam-nos de toda parta da Inglaterra relatos dessas harmonias do Alto, ouvidas por moribundos e freqüentemente por aqueles que os assistem.
 
"A sra. Leaning nos escreve: “Quando Lily Sewell morreu, sons harmoniosos foram ouvidos, parecendo provirem de um canto do quarto, e isso durante os dois dias que precederam sua morte.

A criança não ouvia nada, mas seus pais, sua irmã e a empregada os perceberam, e no terceiro dia, quando a criança morreu, o som tornou-se mais suave, tornou-se semelhante ao de uma harpa eólica, saiu do quarto, passou pela casa e afastou-se gradualmente”
 
"Um professor de Eton, na Inglaterra, em 1881, em um momento em que se encontrava perto da mãe, ouviu, alguns minutos após a morte desta, uma suave música de três vozes infantis cantando um hino de forma tão penetrante que nenhum ser humano teria podido fazê-lo.

Duas pessoas presentes, e o médico que lá se encontrava, ouviram-na igualmente e abriram uma janela para ver se descobriam de onde provinham aqueles sons maravilhosos.
 
"O dr. Kenealy conta assim a morte de seu jovem irmão: “Seu quarto dava para uma grande e bonita vista, cercada por verdes colinas.

Perto de seu leito várias pessoas da família encontravam-se sentadas, assim como também o médico; era uma voz melancólica e celeste de mulher, cujos tons não podem ser descritos. Isto durou vários minutos; em seguida, fundiu-se, como as sinuosidades das ondas sobre a areia, ora ainda ressoando, ora mal murmurando; em seguida veio o silêncio.

Quando o canto começou, a criança entrou em agonia e no último murmúrio sua alma partiu!”
 
"Enfim anotamos o caso descrito por H. Rooske, de Guilford: “Há alguns anos minha irmã e eu tivemos uma experiência que nos serviu de grande conforto na vida.

Nossa mãe encontrava-se perigosamente doente; o médico e a governanta sabiam que seus sofrimentos chegavam ao fim.

Uma noite em que minha irmã velava por ela com a governanta, ouviu de repente o mais lindo, o mais majestoso dos coros, cantado por vozes tão celestes como ela jamais ouvira. Virando-se em direção à governanta, perguntou-lhe: `A senhora está ouvindo?' `Não estou ouvindo nada', foi a resposta.

Eu havia me deitado em um cômodo contíguo, esgotado pelas longas vigílias e por cruéis inquietações; os sons celestes despertaram-me de um sono profundo, saltei da cama e corri ao quarto de minha mãe perguntando: `De onde vem essa música maravilhosa?'

Repentinamente os sons cessaram, e aproximando-nos do leito percebemos que a doce alma havia partido com a divina harmonia.”[...]
 
(Léon Dennis, Cap. 6, O Espiritismo na Arte)