×
SESC

22 Ago 2017 07h50

Mediunidade e Obsessão na Juventude

Caso: A História de Almério

Livro: Tormentos da Obsessão, cap. Contato precioso, 2. ed.

Personagens:  Almério e Manoel P. de Miranda

Local: Sanatório Esperança


 QUEM ERA ALMÉRIO?


"Um voluntário, que ali se encontrava, ofereceu-se para conduzir-me à sala, elucidando-me que estava em estágio, na fase do atendimento, a fim de preparar-se para iniciar estudos especiais sobre a problemática do comportamento humano, quando se encontrasse habilitado.

Muito simpático, logo informou-me que houvera desencarnado, fazia vinte anos, havendo sido atendido naquele Nosocômio, onde despertara em lamentável estado de perturbação espiritual, de que se foi libertando, graças ao amparo e empenho dos médicos e enfermeiros que o atenderam, até que pôde ensaiar os primeiros passos pelo ambiente, dando-se conta da realidade da vida e procurando adaptar-se ao novo habitat, embora as saudades dilaceradoras que conservava em relação à família e aos seres amigos, bem como às tarefas interrompidas que ficaram no domicílio carnal." (p. 75).


INFANCIA ATORMENTADA


"Recordo-me que, desde criança, vez por outra, era acometido de clarividências, detectando seres infantis, que se me acercavam em festa, convivendo com os mesmos por alguns minutos.
Outras vezes, defrontava monstros pavorosos que me ameaçavam, levando-me ao desespero e a desmaios, dos quais acordava banhado por álgido suor. O carinho vigilante de minha mãe sempre me socorria, defendendo-me desses fantasmas terrificantes." (p. 76-77).


ADOLESCÊNCIA


"Por algum breve período tive a impressão de que amainara a ocorrência, para, a partir dos catorze anos, distúrbios nervosos tomarem-me com certa periodicidade, fazendo-me tremer e quase convulsionar.

Fui levado ao médico que, após exames superficiais, atribuiu tratar-se de epilepsia, havendo-me receitado medicamentos que mais me atordoavam, e que, de alguma forma, diminuíam aquele desagradável tormento." (p. 77).


ENCAMINHAMENTO AO CENTRO ESPÍRITA


"Tomando conhecimento do que sucedia comigo, uma vizinha nossa sugeriu aos meus pais que me encaminhassem a um Centro Espírita, por acreditar que se tratava de um distúrbio no campo mediúnico, portanto, de uma obsessão que estivesse em processo de instalação.

Embora meus genitores estivessem vinculados à religião católica, não titubearam, conduzindo-me ao Núcleo que fora indicado, por ser aquele da freqüência da generosa.


TRATAMENTO ESPIRITUAL E ESTUDOS ESPÍRITAS NA MOCIDADE


"Almério fez uma pausa, como se estivesse recapitulando páginas importantes do livro da sua existência mais recente, após o que, tranqüilamente continuou:

- A primeira visita foi inesquecível, porque, atendido carinhosamente pela diretora da Casa, enquanto conversávamos fui acometido da crise, facilitando-lhe o diagnóstico espiritual.

Conhecedora dos tormentos da obsessão, D. Clarice usou de palavras bondosas para com o perturbador, enquanto me aplicava a bio-energia através de passes vigorosos em clima de oração.

De imediato, retornei ao estado de paz, de modo que a entrevista foi encerrada, após ser-me oferecida a terapia para o equilíbrio da saúde, que consistia em fazer parte de um grupo juvenil de estudos espíritas, a fim de que me pudesse iniciar no conhecimento da Doutrina, após o que, e somente então, me seria permitido participar das atividades mediúnicas.

Na minha condição juvenil, felizmente, não tivera tempo para derrapar nas viciações que estão ao alcance da mocidade. Não obstante, cometera os equívocos pertinentes à condição de jovem, por fazerem parte do cardápio comporta mental destes tumultuados dias da Humanidade." (p. 77-78).


A MEDIUNIDADE E A OBSESSÃO NA JUVENTUDE


"A mediunidade, em razão da freqüência à Instituição Espírita, talvez, pelo clima psíquico ali existente, irrompeu com melhor definição, assegurando-me tratar-se de um compromisso sério que deveria abraçar, mas, para o qual seria necessário abandonar a mesa farta dos prazeres, que se encontrava diante de mim, convidativa, e que eu não estava disposto a fazê-Io.

Preparava-me para o vestibular, numa tentativa de conseguir uma vaga na Faculdade de Farmácia, quando fui acometido por uma crise mais forte, que me deixou prostrado, acamado, exigindo a presença da devotada diretora da Casa Espírita, que me socorreu com fluidoterapia e palavras de muito encorajamento, recomendando-me a leitura saudável de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, para robustecer-me moralmente, ajudando-me a superar a agressão espiritual.

A Entidade, que insistia em me afligir, estava-me vinculada por fortes laços do passado estava-me vinculada por fortes laços do passado próximo, quando fora molestada pela minha irresponsabilidade e não se encontrava interessada em liberar-me com facilidade da sua sujeição.

Tornava-se indispensável que, mediante a minha reforma íntima demonstrasse-lhe a mudança que se operara dentro de mim, e do esforço empreendido para reparar os males que lhe houvera feito. Esse programa de iluminação interior iria exigir-me um grande tributo, porque anelava por viver como as demais pessoas, amealhar um bom pecúlio para, mais tarde, construir família e desfrutar dos favores da vida.

O meu passado espiritual, porém, era muito severo, e fui constrangido a trabalhar-me para algumas adaptações à circunstâncias que então se apresentava ...
Eis, pois, como me iniciei no Espiritismo, através das bênçãos do sofrimento, que não soube aproveitar o quanto deveria." (p. 79-80).


DESEQUILÍBRIOS SEXUAIS


"Estimulado, e desculpando-se, Almério deu continuidade:

- Graças ao apoio de pessoas abnegadas na Casa Espí­rita, dos meus pais e do meu Guia espiritual, consegui aden­trar-me na Faculdade e iniciar o curso que desejava. Concomi­tantemente, continuei participando das atividades da Juventude, porém, quase indiferente pelo estudo da Doutrina e a sua in­corporação interior na conduta diária.

O ambiente tumultuado da Faculdade, as minhas predisposições para comprometimentos na área sexual, facultaram-me compromissos perturbadores e vincu­lações com Entidades enfermas que enxameiam nos antros de prostituição, nos motéis da moda, freqüentados por semelhantes encarnados que ali dão vazão aos seus instintos primários e tendências pervertidas.

Já participava das atividades mediúnicas, ao lado de pessoas enobrecidas e caridosas, sem que os seus exemplos repercutissem nos meus sentimentos exaltados pelo sexo em desvario e por falsa necessidade que lhe atribuía.

Tornei-me, desse modo, portador de psicofonia atormentada, que o carinho dos dirigentes encarnados e espirituais tentaram a todo esforço equilibrar, mas as minhas inclinações infelizes dificultavam esse saudável empreendimento.

Acredito que a generosa D. Clarice percebia o meu conflito, porém, honrada e discreta, esperava que o meu discernimento e as orientações espirituais que me chegavam em abundância me despertassem para a realidade, que não podia ser postergada." (p. 80-81).


O MATRIMÔNIO


"Foi nesse ínterim que, orando fervorosamente, supliquei auxílio aos Céus, prometendo-me alteração de conduta e vinculação mais segura com o compromisso aceito espontaneamente... E a minha oração foi ouvida, porquanto, nessa mesma semana conheci Annette, que seria mais tarde a carinhosa esposa que me auxiliaria na educação das forças genésicas.

O amigo deve saber quanto é importante a disciplina sexual na vivência mediúnica. Como as energias procriativas e vitais não devem ser desperdiçadas, mas canalizadas com propriedade e sabedoria.[...]

As lutas prosseguiram com certa harmonia, até quando me diplomei e consorciei-me com a mulher amada. O nosso relacionamento foi muito equilibrado e, conhecedora dos meus compromissos, Annette não teve qualquer dificuldade e acompanhar-me aos estudos espíritas e participar das reuniões doutrinárias, a princípio, e depois, das sessões práticas e de socorro espiritual aos desencarnados. [...].

- Não obstante todo o empenho a que me entregava - esclareceu, com sinceridade, para a renovação interior e o desempenho das tarefas em andamento, um ano após o casamento passei a experimentar inexplicável impotência sexual, gerando-me graves conflitos e dificuldades em torno do relacionamento conjugal.

Sentindo-me fracassado e sem esperanças, procurei ajuda médica, após uma grande relutância, fruto da ignorância e da conceituação machista, e o especialista nada detectou na minha constituição orgânica, que justificasse o problema, encaminhando-me a um sexólogo que, inadvertidamente, me recomendou extravagante terapia, perturbando-me além do que já me encontrava transtornado.

Nesse período, o exercício mediúnico tornou-se-me penoso e angustiante, por dificuldades de concentração e de equilíbrio emocional.

Foi quando resolvi pedir socorro ao Mentor de nossa Sociedade que, solícito, através da mediunidade sonambúlica de Eduardo, por quem se comunicava desde há muito tempo, aconselhou-me a reconquistar o equilíbrio mediante a confiança em Deus, explicando-me tratar-se de uma disfunção psicológica, em cuja raiz estava a influência perversa da minha adversária espiritual...

Equipado com o esclarecimento oportuno, procurei reanimar-m­e, elucidando a esposa em torno da terapia em desdobramento, e pedindo-lhe a compreensão, que nunca me foi negada, já que sempre se conduziu como digno exemplo de companheira ideal e madura, embora contasse apenas vinte e quatro anos de idade.

A tentativa de renovação interior, porém, não havendo proporcionado resultados imediatos, diminuiu de intensidade, enquanto a volúpia do desejo incontrolado, me inquietava em angústia crescente.

Nesse período, em que a mente se encontrava agitada, passei a vivenciar sonhos eróticos, nos quais a lascívia me dominava, particularmente com uma mulher que se me apresentava, ora linda e maravilhosa, noutros momentos, desfigurada e perversa.

Muitas vezes arrastava-me a antros de perversão, onde me sentia exaurir, despertando, socorrido pela esposa que percebia minha agitação e lamentos, e sentindo-me tão depauperado quão perdido em mim mesmo.

Não experimentava a necessária coragem para narrar-lhe o pandemônio em que me debatia, evitando que identificasse os meus tormentos mentais...

O drama prolongou-se por mais de seis meses, quando algo inusitado ocorreu." (p. 81-84).


A OBSSESSORA


"O amigo silenciou brevemente, concatenando as idéias, após o que prosseguiu:

- Participando das reuniões mediúnicas de socorro aos desencarnados, fui instrumento de terrível comunicação, que acredito era necessária para o esclarecimento da minha provação, certamente providenciada pelos Benfeitores espirituais.

Tratava-se de Entidade feminina que se dizia minha vítima, de quem abusara, explorando-a sexualmente até arruiná-Ia. Pior do que isso, informava que eu era casado naquela ocasião, mas vivia clandestinamente com jovens seduzidas em orgias e alucinações.

Não fora ela a primeira... No entanto, havia sofrido muito sob os impositivos das minhas perversões. Duas vezes, sucessivamente, concebera, e, sentindo-se feliz pelo fato, esperava receber apoio, que lhe neguei, sem qualquer compaixão, levando-a ao abortamento insensato.

Na primeira ocasião do crime, ela pôde ceder sem maior relutância, por manter a ilusão de que eu possuísse algum sentimento de afetividade e prazer em conviver ao seu lado, mesmo que fugazmente. Todavia, na segunda concepção, recusando-se ceder à minha insistência, foi levada, quase à força, quando já se encontrava no quinto mês de gravidez, para o hediondo infanticídio, que se transformou numa tragédia de alto porte.

A inabilidade do médico, na clínica sórdida onde recebia as clientes infelizes, ao extrair o feto, provocou uma hemorragia, não conseguindo deter o fluxo sanguíneo, e, embora transferida de emergência para o Pronto Socorro da cidade, menos de duas horas depois seguia pela morte o destino da filhinha covardemente assassinada...

Narrou, então, os sofrimentos indescritíveis que experimentou, e a sede de vingança que tomou conta da sua mente... No entanto, perdeu-se num dédalo de aflições sem nome. Só mais tarde, quando eu me encontrava na passada reencarnação, no período infantil, é que conseguiu, com a ajuda de alguns especialistas em obsessão, reencontrar-me, o que lhe houvera proporcionado infinito prazer.

Desde então, continuou explicando, me seguia, e pretendia levar a cabo o plano de interromper-me a existência carnal, auxiliada como se encontrava por outros Espíritos a quem eu prejudicara, e que estavam igualmente dispostos a conseguir o mesmo fanal.

A lúcida doutrinadora tudo fez para explicar-lhe o erro em que se movimentava, não havendo conseguido resultados expressivos. Envolvendo-a, por fim, após diversas tentativas de esclarecimentos, em ternura e vibrações de paz, a atormentada inimiga retirou-se do campo mediúnico em que se comunicava. Mas não se desvinculou de mim, porquanto, onde se encontra o devedor, aí estagia o cobrador...

Terminada a reunião, fui elucidado quanto aos meus deveres imediatos em favor da libertação, beneficiando o Espírito infeliz, quanto a mim próprio. No entanto, os vícios do pretérito tornaram-se-me grilhões indestrutíveis, que eu não conseguia romper." (p. 84-86).


A DEPRESSÃO


"Mantendo a mente aturdida pelos desejos que o corpo não atendia, lentamente derrapei em perigosa depressão, que se tornou grave, graças às reações que me acometiam, maltratando a família, os amigos, e deixando-me sucumbir cada dia mais, ao ponto de recusar-me prosseguir nas atividades espirituais e profissionais, mergulhando no fosso profundo e escuro da subjugação, que poderia ter sido evitada, caso me houvesse resolvido pela luta. (p. 86).


O SUICÍDIO


Naquele transe, sob a indução cruel, que me houvera conduzido ao transtorno psicótico-maníaco-depressivo, em uma noite de alucinação, porquanto podia ver a mulher-verdugo de minha existência e os seus asseclas, fui induzido a ingerir algu­mas drágeas de sonífero, quase automaticamente, sem qualquer reflexão, a fim de apagar da mente aqueles terríveis pesade­los e libertar-me dos vergonhosos doestos que me atiravam à face, humilhando-me, escarnecendo-me, e sempre mais me ameaçando.

À medida que as substâncias passaram a atuar no meu organismo, um cruel torpor e enregelamento tomou-me todo, produzindo-me a parada cardíaca, e a desencarnação... “(p. 86-87).


O SOCORRO ESPIRITUAL



"Muito difícil explicar os sofrimentos que então passei a experimentar. No princípio, era o pesadelo do morrer-e-­não-estar-morto, a vida sem vida, as sensações da matéria em decomposição e a crua perseguição que não cessava.

Não saberia dizer por quanto tempo estive sob as torpes e excruciantes vinganças daqueles irmãos mais desditosos. As preces da esposa sofrida, dos meus genitores e dos amigos da Instituição religiosa, passaram, então, a alcançar-me como orvalho refrescante no tórrido padecimento que não diminuía.

Um dia, que ainda não posso identificar, senti-me sair do antro para onde fora levado pelas mãos perversas que me induziram ao suicídio, embora sem a minha concordância, o que representava um atenuante para a desdita, passando a dormir sem a presença dos sicários, e a despertar, para logo adormecer, até que a memória e o discernimento ressurgiram, auxiliando-me no processo de recuperação.

E senti-me amparado neste verdadeiro santuário. Graças a Deus e aos Bons Espíritos, aos corações amigos e caridosos, aqui me encontro abraçando um novo trabalho com vistas ao futuro, que a Terra-mãe me concederá, pela nímia misericórdia do Céu.

Tenho orado em favor daqueles que sofreram a minha perversão e loucura, propondo-me espiritualmente socorrê-Ios, quando as circunstâncias o permitirem. Somente o perdão com a reconciliação real, edificando os sentimentos das vítimas com os algozes, conseguirá produzir a paz e a lidima fraternidade.

Almério agora, quando encerrara a narração, apresentava-­se corado, e sorria, exteriorizando real alegria.

Deixava-me a impressão que houvera retirado um peso da consciência e, talvez, por primeira vez, encarara-se sem constrangimento nem desculpas em relação aos atos conturbadores praticados." (p. 87-88).