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SESC

07 Out 2017 23h00

Lazeres e divertimentos

A indústria do turismo, habilmente manipulada, vende os pacotes da ilusão como anestésico para a consciência da responsabilidade...

Muitos indivíduos trabalham afanosamente, acumulando recursos amoedados e o cansaço inevitável, estresse e angústia em decorrência da luta em demasia, mantendo a espectativa de fruir lazeres e divertimentos que lhes trariam reequilíbrio e alegria pura.

Afinal, o objetivo essencial do viver não é o de desfrutar as concessões artificiais que diariamente são renovadas e podem conseguidas mediante os recursos financeiros.

Como efeito, empenham-se para compensar a ausência física e emocional no lar, ao lado da família, pelo anseio de ganhar mais dinheiro, proporcionando-se e a todos os membros domésticos férias coletivas, numa fuga psicológica da realidade do dia a dia, que é a participação dos problemas e desafios no seio dessa célula de valor ímpar que são os familiares.
 
À semelhança de aves gárrulas, realizando a viagem dos sonhos e do espairecimento, visitam lugares consagrados ao ócio, onde predominam a beleza das paisagens, os artefatos, de alto valor tecnológico para o esquecimento dos problemas, vivenciando o mundo de fantasias e do cansaço, das caminhadas exaustivas, dos suores e dos aborrecimentos inevitáveis, esteja-se onde estiver...

Quando se chegam aos lugares paradisíacos, passada a primeira emoção, logo se descobre que quase todo mundo tomou a mesma decisão, escolheu o mesmo local e suas ofertas fantásticas, passando a ouvir os guias monótonos, as crianças em fase de irritação, as despesas não previstas que pioram o orçamento, algum desencanto inicial...

Ao invés do repouso anelado, defronta-se o corre-corre das filas imensas ou o silêncio dos lugares selecionados que, após algum tempo, induzem ao tédio e ao arrependimento.

As promoções muito bem elaboradas magoam aqueles que não podem participar dessas festas, sentindo-se humilhados no grupo social, levando-os à depressão.

Que busca, afinal, a criatura humana, senão as aparências, os aplausos, a ilusão?

É claro que todo esforço prolongado culmine em cansaço e mal-estar, causando sensações de aniquilamentos e de abandono.

A recreação surge, como estímulo renovador, capaz de proporcionar júbilo, facultando estímulos edificantes.

O ser humano é possuidor de inesgotável cabedal de energias e de vitalidade.

Sucede que, fascinado pelo exterior, não se anima a auto-penetrar-se, a encontrar as respostas claras para as próprias necessidades.

[...] Há lazeres no lar, no trabalho, na comunidade, ricos de divertimentos domésticos não desgastantes, como frutos da consciência objetiva do dever.
*
Se te sentes afadigado no trabalho a que te dedicas, muda a rotina, retempera o ânimo e sentirás renovação emocional, tornando-te tranquilo.

Reflexiona em torno dos teus compromissos e põe-lhes o sal do amor, pensando nas metas a alcançar, especialmente quando portadoras de significado profundo.

Considera que o trabalho é benção que deves honrar, não acalentando o anseio infantil somente de férias e de repouso.

Quem opera no bem conscientemente experimenta inefável alegria e, quando é alcançado pela estafa, transfere-se para outro tipo de ação, renovando-se e prosseguindo.
Toda ilusão, ao ser defrontada pela realidade e esfumar-se, deixa significativas marcas de desencanto. Ocorrendo-lhe a morte, alguns indivíduos também sentem morrer das suas aspirações caracterizadas pela falsa necessidade do gozo, do prazer, do possuir...

As alegrias das férias de encantamento passam e retornam os compromissos que ficaram aguardando, esquecidos nos escaninhos da magia e do encantamento de breve duração.

[...]Não acolhas a tristeza, quando não possas fazer parte dos grupos sorridentes de conquistadores do mundo mágico da imaginação deslumbrada.

Estabelece um programa a respeito de tudo quanto te é importante ou secundário e labora com disposição jubilosa, e nenhum cansaço te amarfanhará as horas.

Preenche as tuas horas com atividades produtivas, e naquelas dedicadas ao repouso, ao lazer, não te desligando da realidade, prosseguindo ativo mentalmente e com emoção de felicidade.

Contempla os grupos ruidosos dos festeiros e divertidos após as celebrações, e verá a máscara do mal-estar afivelada à face ou a aceitação para dizer aos outros como foram as alegrias, numa necessidade de exibir o ego, assim apaziguando a frustação.

Vida alegre é assinalada pelo trabalho contínuo, enriquecedor e natural.

Faze do teu lar o abençoado reduto de ação e de paz, onde a alegria seja resultado do prazer de viver e de amar.

E quando possas espairecer, mudando de ambiente, procurando lazeres e divertimentos convencionais, vive-os no seu momento próprio, sem que se te façam pesada carga de despesas inoportunas ou geradoras de futuros desencantos.

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Jesus até hoje trabalha, conforme acentuou, referindo-se ao Pai que nunca cessou de agir.

O cristão primitivo, no sublime trabalho da autoiluminação e da caridade, encontrava a inigualável alegria que os lazeres e divertimentos de fora jamais conseguem proporcionar.

Desse modo, mantém-te desperto, de forma que a noite da ilusão não te sombreie o dia de ação, anunciando-te júbilos que se transforma em esgares.

Joanna de Ângelis. Ilumina-te. Ed. 1. Cap.4