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SESC

22 Ago 2017 07h36

Arte no Plano Espiritual - A Cidade Universitária

 "Constataremos a seguir que na Cidade da Arte, após alguns anos de atuação nos diferentes setores de caridade, enxugando uma e outra lágrima, era concedido a todos a oportunidade de expressar suas experiências adquiridas no apostolado da sublime fraternidade.

A cada lição do Evangelho do Senhor, esplanada pelo jovem catedrático, a cada exemplo apreciado do Mestre Inesquecível, seguiam-se testemunhos nossos, na prática entre os humanos e os desventurados sofredores, assim como análises através de temas que deveríamos desenvolver e apresentar a uma junta examinadora a qual verificaria nosso aproveitamento e compreensão da matéria.

Freqüentemente, pois, produzíamos peças vazadas em temas elevados e inspirados no Evangelho, na Moral como na Ciência, romances, poemas, noticiários, etc.

Uma vez aprovados, estes trabalhos poderiam ser por nós ditados ou revelados aos homens porquanto instrutivos e educativos, conveniente, por isso mesmo, à sua regeneração; e o faríamos através da operosidade mediúnica, subordinados a uma filosofia, ou servindo-nos de sugestões e inspirações a qualquer mentalidade séria capaz de captar-nos as idéias em torno de assuntos moralizadores ou instrutivos.

E quando reprovados repetiríamos a experiência até concordar plenamente o tema com a Verdade que esposávamos e também com as expressões da Arte, de que não poderíamos prescindir.

Os dias consagrados a tais exames eram festivos para todo o Burgo da Esperança. Legítimos certames de uma Arte Sagrada – a do Bem - o encanto que de tais reuniões se destacava ultrapassava todas as concepções de beleza que antes poderíamos ter!

Esforçavam-se os vigilantes na decoração dos ambientes, na qual entravam jogos e feitos de luzes transcendentes indescritíveis em linguagem humana, enquanto luminares de nossa Colônia, como Teócrito, Ramiro de Guzman e Aníbal de Silas se revelavam artistas portadores de dons superiores, quer na literatura como na música e oratória descritiva, isto é, na exposição mental, através de imagens, das produções próprias.

De outras esferas vizinhas desciam caravanas fraternas a emprestarem brilho artístico e confortativo às nossas experimentações.

Nomes que na Terra se pronunciam com respeito e admiração acorriam bondosamente a reanimar-nos para o progresso, ativando em nossos corações humílimos o desejo de prosseguir nas pelejas promissoras.

Não faltaram mesmo em tais assembléias o estímulo genial de vultos como Vitor Hugo e Frederic Chopin – este último considerado suicida na Pátria Espiritual, dado descaso com que se ativera relativamente à própria saúde corporal; ambos, como muitos outros, cujos nomes surpreenderiam igualmente o leitor, exprimiam a magia dos seus pensamentos, dilatados pelas aquisições de longo período na Espiritualidade, através de criações intraduzíveis para as apreciações humanas do momento!

Tivemos, assim, ocasião de ouvir o grande compositor que viveu na Terra mais de uma experiência carnal, sempre consagrado à Arte ou as Belas-Letras, as suas melhores energias mentais, traduzir sua música em imagens e narrações, numa variedade atordoadora de temas, enquanto que o gênio de Hugo mostrava em lições inapreciáveis de beleza e instrução a realidade mental de suas criações literárias!

O poder criador desta mentalidade, a quem a Terra ainda não esqueceu e e que a ela voltará ainda a serviço da Verdade, servindo-a sob prismas surpreendentes, verdadeira missão artística a serviço dAquele que é a Suprema Beleza, deslumbrava nossa sensibilidade até as lágrimas, atraindo-nos para a adoração ao Ser Divino porventura com idêntico fervor, idêntica atração com que a faziam Aníbal de Silas e Epaminondas de Vigo valendo-se do Evangelho da Redenção e da Ciência.

Era o pensamento do grande Hugo, vivificado pela ação da realidade, concretizando de forma a podermos conhecer devidamente as nuanças primorosas das suas vibrações emotivas transubstanciadas em assuntos encantadores da epopéia do Espírito através de migrações terrenas e estágios no Invisível, o que equivale dizer que também ele colaborava na obra de nossa reeducação.

Surpreendeu-nos então a notícia, ali ventilada, de que o gênio de Victor Hugo se confirmava na Terra desde muitos séculos, partindo da Grécia para a Itália e França, sempre deixando após si um rastro luminoso de cultura superior e de Arte.

Seu espírito, pois, em várias idades diferentes, tem sido venerado por muitas gerações, cabendo-lhe positivamente a glória de que se cerca em planos intelectuais.

Quanto ao outro, Chopin, alma insatisfeita, que somente agora compreendeu que com o humilde Carpinteiro de Nazaré encontrará o segredo dos sublimes ideais que a saciarão, em miríficas expansões de música arrebatadora, transportada da magia dos sons para o deslumbramento da expressão real, deu-nos o dramático poema das sua migrações terrenas, uma delas anterior mesmo ao advento do Grande Emissário, mas já a serviço da Arte, cultivando as Belas-Letras como poeta inesquecível, que viveu em pleno império da força, na Roma dos Césares!”


(MEMÓRIAS DE UM SUICIDA, Homem Velho – Yvone A. Pereira)