×
SESC

14 Set 2017 09h03

Sobre a tradução de O Evangelho Segundo o Espiritismo – parte 5

Quando menciona os irmãos de Jesus, Kardec utiliza a expressão “Pour ce qui est de ses frères” (cap. 14, 7), logo no início do parágrafo. Sob o critério estritamente literal, a expressão não encontra correspondência linguística que estabeleça, com sentido, uma relação biunívoca entre as palavras do francês com as do português. As traduções existentes optam, o que não está errado, por quanto a seus irmãos, no que se refere a seus irmãos, no que concerne a seus irmãos.
A tradução da Editora Auta de Souza propõe repensar isso. A preposição pour é polissêmica. Pode apresentar, também, os seguintes significados:

 «Pour (...) 3 (exprimant un rapoort d’équivalence entre deux termes) > comme. L’amour our principe. (...) 4. En prenant la place de. Payer, agir pour qqn. Signe pour moi» (Le Petit Robert, p. 1985)

"Por (...) 3. (exprimindo uma relação de equivalência entre dois termos) > como. O amor como princípio. (...) 4. Estando no lugar de. Pagar, agir por alguém. Assim por mim." (tradução nossa)

Assim, a proposta é enfatizar esse sentido da preposição pour, com o resultado seguinte: Quanto àqueles considerados seus irmãos ou Quanto aos chamados irmãos de Jesus, sendo esta última a que foi adotada na tradução.
O acerto desta opção se torna irrecusável quando se percebe que, logo antes, na frase de abertura do capítulo 14, síntese 7, Kardec utiliza proche:

«On s'étonne avec raison de voir, en cette circonstance, Jésus montrer tant d'indifférence pour ses proches et en quelque sorte renier sa mère. (cap. 14, 7)»

As traduções optam por parentes. Não obstante, proche também tem o sentido de próximo e íntimo, que, aliás, sãos os sentidos mais correntes do termo.
Surge uma admirável coincidência com o texto de Jean-Baptiste Roustaing:

“Os chamados irmãos e irmãs de Jesus eram, segundo o parentesco humano que entre eles havia aos olhos dos homens, seus primos-irmãos.” (Os Quatro Evangelhos. Vol. 2, síntese 163, trad. Guillon Ribeiro, FEB, 8ª ed.)

Ora, proche, como próximo ou íntimo, até mesmo como parentes, não quer significar descendentes de iguais genitores, o que corrobora a opção pela proposta: Quanto aos chamados irmãos de Jesus.
A aproximação entre os textos de Roustaing e de Kardec mostra-se acertada também no trecho seguinte em que Kardec utiliza o termo famille, que também pode se estender para além da descendência de uma mesma mãe e um mesmo pai, para envolver os primo-irmãos:

«Jésus ne négligeait aucune occasion de donner un enseignement ; il saisit donc celle que lui offrait l'arrivée de sa famille pour établir la différence qui existe entre la parenté corporelle et la parenté spirituelle.» (cap. 14, 7)

Além disso, percebe-se que, quando Kardec quer utilizar algo parecido com o que as traduções fazem (quanto a seus irmãos), ele emprega quant a sa, como no início do parágrafo referente a Maria. É significativo e eloquente o fato de ele não ter utilizado quant a ses frères:

«Quant à sa mère, nul ne saurait contester sa tendresse pour son fils.»

Note-se que Kardec, na Revue Spirite de Junho de 1866 mencionou que os Quatro Evangelhos não colidiam, em nenhum ponto, com o Livro dos Espíritos e com o Livro dos Médiuns.

«C'est un travail considérable, et qui a, pour les Spirites, le mérite de n'être sur aucun point en contradiction avec la doctrine enseignée par le Livre des Esprits et celui des médiums. Les parties correspondantes à celles que nous avons traitées dans l'Evangile selon le Spiritisme le sont dans un sens analogue.»

"É um trabalho considerável, e que tem, para os espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo Livro dos Espíritos e o dos médiuns. As partes correspondentes àqueles que nós tratamos em O Evangelho segundo o Espiritismo o são em um sentido análogo." (grifos nossos)

Logo, a proposta de tradução optou por acentuar, enfatizar, essa coincidência identificada por Kardec entre Os Quatro Evangelhos e O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, bem como a analogia com O Evangelho segundo o Espiritismo.
Ressalte-se que em Os Quatro Evangelhos, síntese 163, menciona-se que o equívoco de interpretação quanto aos irmãos de Jesus não deverá mais ocorrer:

"Há nisso um erro manifesto que, após as discussões travadas outrora e mesmo nos dias de hoje, não mais deverá reproduzir-se."¹ 

A proposta da tradução, portanto, procura evitar esse problema, derivado de um desvio de hermenêutica, desvio que não está presente no original, conforme a interpretação que se fez da preposição pour e do substantivo proche.

____________________________________________________
¹ - ROUSTAING, Jean-Baptiste. Os Quatro Evangelhos, trad. Guillon Ribeiro, FEB, 8ª ed., p. 311.