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SESC

12 Set 2017 19h48

Sobre a tradução de O Evangelho Segundo o Espiritismo – parte 4

Ponto de extremo relevo na tradução é a proposta de apresentação de Maria de Nazaré em sua real dimensão histórica e espiritual. As traduções existentes o texto do capítulo quatorze, síntese sete, conduzem à inferência de que Maria de Nazaré era alheia à missão do Cristo de Deus, quando optam por redigir que ela não fazia ideia muito exata da missão de Jesus e que ela nunca tenha seguido os ensinos dEle. 
O texto original utiliza o verbo paraître: 
 
« Quant à sa mère, nul ne saurait contester sa tendresse pour son fils; mais il faut bien convenir aussi qu'elle ne paraît pas s'être fait une idée très juste de sa mission  (...) » (grifos nossos)
 
O verbo paraître pode ser vertido no português tanto como parecer quanto aparentar, duas opções igualmente legítimas, em termos puramente linguísticos. 

Entretanto, adentrando-se na dimensão hermenêutica, é possível sustentar que Maria de Nazaré compreendia a missão de Jesus. Com efeito, ainda na juventude prontificou-se, sem hesitação, a contribuir na tarefa de Jesus no planeta, quando ela responde, por ocasião da anunciação pelo anjo Gabriel:

“Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.” (Lucas, 1:38). 

Além disso, deixa-nos um programa de ação com fidelidade a Jesus, quando, em Canaã, orienta os mordomos, como se falasse para toda a humanidade: “Fazei tudo quanto ele vos disser.” (João, 2:5). 


Não só isso, mas também nos exemplifica a lealdade ao Cristo, até mesmo em circunstâncias mais perigosas, quando permanece junto dEle ao pé da cruz: “E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena.” (João, 19:25).

Assim, de um ponto a outro da missão de Jesus, Maria de Nazaré revelou compreensão da missão dEle, de modo que não se mostra razoável supor que o original, da lavra de Allan Kardec, tenha dito que Maria estava alheia a tudo. Por isso, é mais razoável optar pelo verbo aparentar para traduzir o verbo paraître, hipótese que tem não só adequação linguística, como também congruência hermenêutica, justificando-se a tradução proposta: 

“Quanto à sua mãe, ninguém ousaria contestar sua ternura por seu filho; mas é de se convir, também, que aparentava não ter feito uma ideia muito justa da missão do filho (...)” (grifos nossos)
          
Trata-se, portanto, de aparência: aparentar não ter feito ideia justa da missão de Jesus não significa não ter realmente feito ideia justa.
Essa opção torna-se coerente com e justifica outro fragmento do original, pois, logo a seguir ao trecho em análise, o original traz: 
 
« (...) car on ne l'a jamais vue suivre ses enseignements, ni lui rendre témoignage, comme l'a fait Jean-Baptiste » (grifos nossos)
 
As traduções existentes, sem desmerecê-las, vertem a construção on ne l’a jamais vue, como, a título de exemplo, não se vê nunca, chegando ao resultado de que Maria de Nazaré nunca havia seguido os ensinamentos de Jesus. 

A abertura linguística para uma interpretação assim descrita não é condizente com os relatos sobre Maria de Nazaré no Novo Testamento, conforme exposto acima, o que gera a fundada percepção de que o original não pretende esse resultado, não tem essa intenção comunicativa.  

Assim, refletindo-se sobre a construção frásica on ne l’a jamais vue, é possível interpretar que a partícula pronominal on seguida do verbo voir, conjugando no particípio passado vue, permite ser vertida para o português como uma estrutura na voz passiva e, convertendo-a para uma construção com sujeito indeterminado, legitimada pela partícula on, advém o seguinte resultado: 
 
“(...) pois não a viram seguir seus ensinamentos, nem lhe prestar testemunho, como o fez João Batista.”
Trata-se, de novo, de aparência, pois não ter sido vista seguir os ensinamentos de Jesus não significa não os ter seguido e, tê-los seguido, mostra-nos o Novo Testamento.
Também no-lo mostram os ensinamentos de Áureo: 
 
“Mas o amor sublime de excelsos Espíritos de Sírius não abandonou os antigos companheiros, e foi de lá, daquele orbe santificado, que vieram, desde os primórdios da Terra, para auxiliar voluntariamente ao Cristo Jesus, aqueles seres extraordinários que cercaram, no mundo, o Messias, como Ana e Simeão, Isabel e Zacarias, e principalmente o Carpinteiro José e a Santa Mãe Maria.” (grifos nossos) 
 
“Jesus disse à esposa de Zebedeu que só se assentariam à sua direita e à sua esquerda, no Reino dos Céus, aqueles a quem o Pai havia reservado esses lugares, porque sabia que o Eterno já elegera para esses supremos ministérios o grande Batista e a magnânima Maria de Nazaré; o primeiro para reger, sob a sua crística supervisão, os problemas planetários da Justiça, e Ela para superintender, sob a sua soberana influência, as benevolências do Amor. Por isso, todos os decretos lavrados pelo Sublime Chanceler da Justiça somente são homologados pelo Cristo depois de examinados e instruídos pela Excelsa Advogada da Humanidade, a fim de que nunca falte, em qualquer processo de dor, as bênçãos compassivas da misericórdia e da esperança.” (grifos nossos)  
 
Paz!