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SESC

02 Dez 2017 17h36

Necessidade da ideia de Deus

Deus é maior que todas as teorias e todos os sistemas. Eis a razão por que não pode Ele ser atingido, nem minorado pelos erros e faltas que os homens têm cometido em seu nome. 
 
Deus é soberano a tudo. 

O Ser divino escapa a toda a denominação e a qualquer medida, e, se lhe chamamos Deus, é por falta de um: nome maior, assim o disse Victor Hugo. 
A questão de Deus é o mais grave de todos os problemas suspensos sobre nossas cabeças e cuja Solução se liga, de maneira estrita, imperiosa, ao Problema do ser humano e de seu destino, ao problema da vida individual e da vida social. 

O conhecimento da verdade sobre Deus, sobre o mundo e a vida é o que há de mais essencial, de mais necessário, porque é Ele que nos sustenta nos inspira e nos dirige mesmo à nossa revelia. E esta verdade não é inacessível, como veremos; é simples e clara; está ao alcance de todos. Basta procurá-la, sem preconceitos, sem reservas, ao lado da consciência e da razão.

[...]

Ora, que dizem esses Espíritos sobre a questão de Deus? A existência da Potência Suprema é afirmada por todos os Espíritos elevados. Aqueles, dentre nós, que tem estudado o Espiritismo filosófico, sabem que todos os grandes Espíritos, todos aqueles cujos ensinamentos têm reconfortado as nossas almas, mitigado nossas misérias, sustentado nossos desfalecimentos, são unânimes em a firmar, em repetir, em reconhecer a alta Inteligência que governa os seres e os mundos. Eles dizem que essa Inteligência se revela mais brilhante e mais sublime à medida que se escalam os degraus da vida espiritual. 

O mesmo se dá com os escritores e filósofos espíritas, desde Allan Kardec até nossos dias. Todos afirmam a existência de uma causa eterna no Universo. 

“Não há efeito sem causa — disse Allan Kardec —, e todo efeito inteligente tem forçosamente uma causa Inteligente”. Eis o princípio sobre o qual repousa o Espiritismo inteiro. Esse princípio, quando o aplicamos às manifestações de Além-Túmulo, demonstra a existência dos Espíritos. Aplicado, ao estudo do mundo e das leis universais, demonstra a existência de uma causa inteligente no Universo. Eis por que a existência de Deus constitui um dos pontos essenciais do ensino espírita. Acrescento que é inseparável do resto desses ensina, porque, neste último, tudo se figa, tudo se coordena e se encadeia. Que não nos falem de dogmas! O Espiritismo não os comporta.

Ele nada impõe; ensina. Todo ensino tem seus princípios. A ideia de Deus é um dos princípios fundamentais do Espiritismo. 

Dizem-nos frequentemente: —  Para que nos ocuparmos dessa questão de Deus? A existência de Deus não pode ser provada! Ou ainda: — A existência de Deus ou sua não existência é sem predomínio sobre a vida das massas e da Humanidade. Ocupemo-¬nos de alguma coisa mais prática; não percamos nosso  tempo em dissertações vãs, em discussões metafísicas. Pois bem!  Em que pese àqueles que mantêm esta linguagem, repetirei que é questão vital por excelência; responderei que o homem não se pode desinteressar dela, porque o homem é um ser. [...]

A opinião que tem sobre a causa, sobre a lei do Universo, essa opinião, o quer queira ou não, quer saiba ou não, se reflete em seus atos, em toda a sua vida pública ou particular. 

Qualquer que seja a ignorância do homem no que respeita às leis superiores, na realidade — é segundo a ideia que forma dessas leis, por mais vaga e confusa que possa ser tal concepção —  é de conformidade com essa ideia que a criatura age. Desta opinião — sobre Deus, sobre o mundo e sobre a vida (notais que estes três assuntos são inseparáveis) —, desta opinião, as sociedades humanas vivem ou morrem! É ela que divide a Humanidade em dois campos.

Por toda parte, veem-se famílias em desacordo, em desunião intelectual, porque há muitos sistemas acerca de Deus: o padre inculca um à mulher; o professor  ensina outro ao homem, quando não lhe sugere a ideia do Nada. 

Essas polêmicas e essas contradições explicam-se, entretanto. Têm sua razão de ser. Devemo-nos lembrar de que nem todas as inteligências chegaram ao mesmo ponto de evolução; que nem todos podem ver e compreender de igual modo e no  mesmo sentido. Daí, tantas opiniões e crenças diversas. [...]

Todos sabem que alguém, colocado ao pé da montanha, não pode descortinar o mesmo panorama aberto ao que já chegou ao vértice; mas, prosseguindo sua ascensão, um chegará a ver as mesmas coisas que o  outro. O mesmo acontece com o Espírito em sua ascensão gradual. O Universo não se revela se não pouco a pouco, à medida que a capacidade de lhe compreender as leis se desenvolve e engrandece o indivíduo. 

Daí vem o sistema, as escolas filosóficas e religiosas, que correspondem aos diversos graus de adiantamento dos Espíritos que nuns e noutros se fiam e, muitas vezes, aí se insulam. (León Denis, O Grande Enigma, cap. V, p. 34-36)